VOCÊ TEM FÉ? - Mensagem Pastoral de Dom Rubens Sevilha de 12 de julho de 2020.


Qual a diferença entre uma pessoa que tem fé e a outra que diz não a ter? Ambas terão que enfrentar a mesma dura luta da vida, com suas alegrias e tristezas, luzes e sombras. Antigamente, quando as coisas eram socialmente mais definidas, era mais fácil identificar a diferença entre crente e não crente. Hoje, sendo tudo junto e misturado, inclusive a fé e a falta dela, ficou difícil perceber a presença ou ausência dela.

Creio que hoje ninguém mede a fé pela simples afirmação de ideias religiosas corretas e, muito menos, obviamente, pelas ideias religiosas erradas. Todos sabemos que o demônio também conhecia a Bíblia, pois tentou Jesus no deserto com palavras da Sagrada Escritura (cf. Mt4,1).

Alguns medem a fé pelo comportamento coerente pois, de fato, a fé sem obras é morta (Tg2,14). Mas todos nós experimentamos a inata e incorrigível incoerência que carregaremos até o túmulo. Criatura alguma (exceto Maria, Mãe de Jesus) conseguiu ser coerente completamente e o tempo todo. Portanto, a falta de fé não pode ser medida pelos deslizes, ou mesmo pelos pecados, pois estes, infelizmente, fazem parte da triste condição humana. Alguns grandes santos foram grandes pecadores e a radical conversão de vida não invalida ou anula a biografia pregressa deles. O grande São Paulo, por exemplo, foi perseguidor dos cristãos e, mesmo depois da conversão, continuou cometendo erros pois ele mesmo confessa: “eu não faço o bem que quero, mas pratico o mal que não quero” (Rm7,19).

O Papa Francisco tem feito uma sábia distinção entre o pecador e o corrupto. Pecadores somos todos nós que caímos e, pela misericórdia de Deus, somos reerguidos; enquanto o homem de alma corrompida não percebe a miserável situação em que se encontra e, pelo contrário, até se vangloria dela. É o cego que acha que vê.

A fé é impossível de ser mensurada humanamente. Só Deus tem o instrumental capaz de medir a fé com precisão. Nós não temos capacidade para isso. Todavia, Deus nos revelou e capacitou com a percepção de alguns indícios que são a ortodoxia (a doutrina correta), além da ortopraxia (o agir correto) e sobretudo, desculpem-me os neologismos, a ortopathia (o sentimento correto).

A aceitação da própria fragilidade e pequenez implica receber com gratidão a fé como um dom. O pior dos orgulhos é o orgulho espiritual. Hoje nos falta a humildade espiritual, ou seja, aceitar com serenidade e alegria o “nada” que somos diante de Deus. Os grandes santos diziam, com enorme naturalidade, que eles eram “vermes”, um grão de areia, um nada. E, curiosamente, não sofriam de baixo autoestima, pelo contrário, eles estavam muito serenos consigo mesmos, pois estavam profundamente convencidos de que eram vermes e grãos de areia criados e eternamente amados por Deus. Enfim, eles tinham fé. Hoje, excluindo a Deus, nos resta compararmo-nos mutuamente e partimos para o ataque e a defesa contínuos.

Qual a diferença entre quem tem fé e o ateu? Não sei. Só Deus sabe e é capaz de julgar o coração humano. Há muitas almas que julgam ter fé, mas dela têm somente uma casca, tipo sepulcro caiado, crentes por fora e ateias por dentro. Creio haver hoje um grande número de pessoas não religiosas, que até se declaram ateias e que, pela maneira de ser e de agir, têm mais fé do que eu. Em todo caso, estou na luta e todos os dias peço: Creio, Senhor, mas aumenta a minha fé.

Dom Rubens Sevilha, OCD.

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