PESSOAS TÓXICAS - Conversando com o Bispo de 29 de novembro de 2020.


Observei que está em moda a expressão “pessoas tóxicas.” Em geral, os textos aconselham que fiquemos longe delas, que as evitemos e, para o nosso bem, que até mesmo as excluamos da nossa vida.

Gostaria de entender o que é, exatamente, uma pessoa tóxica. Parece-me que se refere a uma pessoa ruim; e aqui aparece o primeiro problema a se resolver, ou seja, como julgar e definir uma pessoa como má. Sabemos, por experiência, que erramos com frequência ao julgar as pessoas. Quando não simpatizamos com alguém temos a tendência a olhar com lente de aumento os defeitos dela. Pelo contrário, tendemos a minimizar os erros das pessoas queridas.

Mesmo aquelas pessoas que, “objetivamente” são consideradas más, elas podem ter inúmeras atenuantes diante dos olhos amorosos de Deus que podem ser, de fato, vítimas, aquelas que julgávamos culpadas. Outras pessoas são sepulcros caiados. Enfim, só Deus pode julgar verdadeiramente.

Parece-me que muitos classificam como tóxicas aquelas pessoas que lhes são desagradáveis. A antipatia que sentem por alguma pessoa pode ter como causa, às vezes oculta, o ressentimento ou mágoa por alguma ofensa recebida, ou inveja. Aqui já não sabemos, entre ambas, qual é a pessoa mais “tóxica”, se a ofendida ou a ofensora, pois a pessoa ofendida pode estar se autointoxicando com sentimentos de raiva e vingança, enquanto a ofensora já se desintoxicou pedindo perdão e arrependendo-se sinceramente.

Infelizmente, em nossa cegueira narcísica julgamos que as pessoas tóxicas são sempre os outros, nunca nós! Todos nós somos uma complexa mistura de coisas boas e ruins e passamos a vida, guiados e iluminados por Deus, lutando para combater o bom combate e, assim, diminuir o mal do mundo fazendo o bem.

É uma ofensa a Deus propor que fujamos, excluamos ou, até mesmo, eliminemos as pessoas tóxicas da nossa vida. Jesus nos ordenou que amemos o próximo, inclusive, ou sobretudo, as pessoas tóxicas; talvez, elas sejam as pessoas mais necessitadas de amor, pois o amor é o oxigênio da alma, capaz de desintoxicar a nossa existência do mal. Aliás, segundo os ensinamentos de Jesus, devemos amar, sobretudo, os “intoxicados”, pois Ele disse que quem precisa do médico é o doente e não o sadio e que Ele veio para os pecadores e não para os justos (Lc 5,31). Por amor, devemos fazer todo o bem possível para que eles se libertem do mal e se tornem pessoas melhores e mais felizes.

Esperar que as pessoas melhorem para que elas parem de nos perturbar a vida, seria egoísmo disfarçado de altruísmo. Devemos fazer o bem gratuitamente, desejando apenas a alegria e felicidade dos outros. Alguns pretensos textos de autoajuda dão o péssimo conselho para que fujamos e excluamos as pessoas tóxicas da nossa vida. O cristão jamais foge ou abandona os irmãos; todavia, em algumas circunstâncias, por amor, ele pode estabelecer um “recuo estratégico” e, em seguida, voltar a insistir no bem. “O amor não cansa, nem se cansa”, escreveu S. João da Cruz. O amor verdadeiro não desiste nunca, por isso, Deus nunca desiste de nós. O amor de Deus não cansa, nem se cansa. Deus é fiel ao seu amor.

Enfim, mais do que se preocupar com a “toxidade” das pessoas que estão ao nosso redor, preocupemo-nos em retirar, primeiro, a trave do nosso olho, para depois, se for o caso, tentar retirar o cisco no olho do irmão. Em todo caso, tenhamos sempre “a prudência da serpente e a simplicidade das pombas” (Mt 10,16).



Dom Rubens Sevilha, OCD.

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