O GRUDE DA ALMA - Conversando com o Bispo de 8 de novembro de 2020.

As palavras apego e piche têm a mesma origem latina e provêm da grudenta resina de um pinheiro. O apego é um grude. Quando duas pessoas estão apegadas, elas estão grudadas. Quando o apego passa, chega o doloroso momento do desgrude que sempre arranca alguns pedaços de emoções e abre feridas. Algumas pessoas levam mais tempo para cicatrizar as dores emocionais porque elas ficam descascando a ferida. A pomada que cura a ferida chama-se perdão e é totalmente gratuita. Dói um pouco ao ser aplicada, mas, em pouco tempo, o alívio aparece. Detalhe: a pomada do perdão só pode ser aplicada em si mesmo, ou seja, é impossível aplicá-la nos outros.

Há vários tipos e modos de grude. Algumas coisas grudam em algumas pessoas e em outras não. Por exemplo, algumas pessoas são apegadas ao trabalho, outras fogem dele. Algumas são apegadas ao cigarro, outras não suportam o cheiro. Alguns apegos são mais danosos, outros menos, mas todos são ruins, embora não na mesma intensidade. Há os apegos passageiros, que geralmente são mais intensos e existem aqueles de longa data.

O apego nos dá a imediata sensação de domínio sobre o objeto, mas, traiçoeiramente, o objeto nos escravizará. A capacidade de grudar não está no objeto. Todas as coisas, em si mesmas, não têm capacidade de grudar em nós. A cola é produzida pela nossa alma e chama-se desejo.

O galão de cola dos nossos desejos não vem com manual de instrução. É preciso aprender a manuseá-lo e a usá-lo de maneira adequada, senão o estrago é grande. Creio que está faltando educação, teórica e prática, para o uso do desejo. Algumas pessoas querem, ilusoriamente, eliminar os desejos através da religião. Elas veem a fé como um xarope que purifica automaticamente a alma, livrando-a da cola espiritual dos desejos. A fé não elimina desejos, ela ilumina a alma com a luz da liberdade dos filhos de Deus e, assim sendo, o fiel usará da sábia liberdade luminosa para decidir sobre seus desejos com suas consequências boas ou ruins. O cristão opta pelo que é bom, verdadeiro e belo evitando o mau, a mentira e o grotesco.

São grandes, atualmente, a ignorância e a inaptidão no uso do desejo. Ele virou uma armadilha. Muitos pensam, ingenuamente, que os desejos, por serem algo espontâneo e “natural”, eles também devem correr soltos de maneira espontânea e natural. Temos uma mentalidade espontaneísta que considera o espontâneo como sinônimo de bom. Só que não. A ingenuidade, ou irresponsabilidade, é tamanha que faz cegar o indivíduo sobre as consequências dos seus desejos. Desejar o bem conduz a coisas boas e desejar coisas ruins conduz a consequências ruins. Simples assim.

O apego cega e escraviza a alma. O apego, como uma planta parasita que faz secar uma árvore, mata a vida. O apego sempre começa pequeno, com um olhar, uma fisgada no desejo e, ao encontrar vazão, como um pequeno buraco em uma grande barragem, faz tudo desabar. Um navio carregado de barras de ouro, se permitir um pequeno furo em seu casco, terminará por afundar com todo o seu tesouro, assim muitas vidas afundam, apesar das inúmeras qualidades, talentos e riquezas humanas que possuem.

Toda pessoa, como um pássaro, deve voar livremente. Todavia, se o pássaro estiver amarrado, seja por uma grossa corda ou por um barbante, não voará. Muitos se livram das cordas, mas deixam os barbantes, e permanecem atados. Afinal, “foi para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gal 5,1).

Tudo o que aqui escrevi sobre o apego, em estilo superficial e coloquial, foi escrito por São João da Cruz em estilo sublime e formoso.

Dom Rubens Sevilha, OCD.

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