O BOM COMBATE - Conversando com o Bispo de 27 de setembro de 2020.

O clássico livro de espiritualidade A imitação de Cristo, exorta-nos o desprezo pelo mundo. Por séculos, a tradição cristã nos ensinou a fugir do mundo. É bom esclarecer que na Bíblia e na tradicional linguagem religiosa, a palavra mundo significa tudo aquilo que é contra os valores, o projeto e a pessoa de Deus. Obviamente, tudo o que existe foi planejado e criado por Deus e, portanto, o mundo é essencialmente bom, mas o pecado desorganiza e destrói a realidade em seus vários aspectos: ideias, relacionamentos, família, sociedade, natureza etc.

A cultura atual prega o inverso, isto é, incita a supervalorização do mundo e o fascínio por ele. O resultado do saciar-se com o mundo sempre foi o vazio e desespero. Hoje a grande e faiscante porta para o mundo chama-se Internet. Não devemos confundir o desprezo pelo mundo com a indiferença diante dos problemas e sofrimentos da humanidade. Infelizmente, ao longo da história da espiritualidade, a fuga do mundo foi usada para acobertar o egoísmo, a acomodação e o ensimesmamento de muitos cristãos e instituições religiosas. Isso também termina resultando em vazio e desespero.

Não se trata de mau humor, de pessimismo crônico ou de adolescentesca revolta generalizada, mas de sábia e sadia visão sobre o verdadeiro lugar que o mundo deve ter no coração do cristão. Jesus já nos ensinou que devemos “estar no mundo, mas não ser do mundo” (cf. Jo 17, 14).

Estar no mundo significa enfrentar a realidade do jeito que ela se apresenta. Um dos sete dons do Espírito Santo é o dom da Fortaleza, que torna o cristão um “soldado” de Cristo e lhe dá coragem e armas para combater o bom combate da fé. O pessimismo e o desânimo diante da luta da vida são atitudes covardes de aceitação da derrota diante do mundo. Enfim, todo desânimo, em última instância, é falta de fé. Pois, quem confia no amoroso Senhor Deus Pai Todo Poderoso e cheio de misericórdia, jamais desistirá de combater o bom combate do bem. Quando cai ou fracassa, o cristão sabe que tem um Pai com a mão amorosa estendida para lhe perdoar, curar, levantar e recomeçar a luta sem nunca desanimar. “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8,31).

O mundo é enganador. Ele promete vida fácil, ele promete felicidade fácil, ele insinua que nós somos deusinhos e que tudo o que queremos será realizado, basta querer, basta ter “força de vontade” e os nossos desejos todos serão realizados. O mundo canta no ouvido da nossa alma que não há nada acima de nós e o seu mandamento é amar a si mesmo acima de todas as coisas e ao próximo quando for do meu interesse. Consequentemente, ao acreditar nessa mentira, queremos que a realidade ao nosso redor esteja sempre pronta e de joelhos para nos servir. Queremos que as pessoas sejam como nós queremos que elas sejam e que nos admirem, nos amem, nos aplaudam e nos sirvam. Queremos, infantilmente, que os acontecimentos da vida se desvelem exatamente como sonhamos, desejamos e planejamos.

O que acontecerá com essa mimada criança interior, quando ela perceber que foi enganada pelo mundo e a crua e, às vezes, cruel realidade desabar sobre a sua cabeça e ver o seu mundo cair? Aquele que tem fé, humildemente e arrependido, chorará amargamente seu engano e, com certeza, encontrará sempre os fortes braços abertos do Pai para acolhê-lo, perdoar-lhe tudo e dizer-lhe ao coração: “Filho, você está sempre comigo, e tudo o que é meu, é seu também” (Lc 15,31).

Dom Rubens Sevilha, OCD.

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