Foi para isso que eu vim - Conversando com o Bispo de 07 de fevereiro de 2021

A vida é um sopro - Jó 7, 1-4.6-7

Depois de ter conhecido a felicidade, vivido confortavelmente e em paz, Jó faz a experiência da perda, da doença, da dor. Os seus dias são deprimentes, preenchidos por trabalho duro como de escravo sem perceber rendimento algum. As suas noites são mal dormidas e atormentadas por pesadelos, angústias e preocupações. Jó toma consciência de que seu viver é sem sossego, para descrevê-lo só mesmo apelando para um repertório catastrófico de desgraça. Em si mesma, como ele afirma, a vida é dura, depende de outrem, do Senhor. Quando chega a hora da doença, e sempre vem essa hora, a doença torna o seu viver incerto, um sopro. Jó reclama, levanta uma queixa amarga. De onde me vem tal desgraça? Os seus amigos tentam, mas, em vão, não conseguem trazer-lhe consolo. Pelo contrário, insinuam que Deus o castiga por uma culpa cometida, um pecado não resgatado. Repete a lamentação: Que mal fiz eu para ser castigado deste modo? Pedir a Deus que venha me salvar ou desejar a morte? O que parece melhor? Jó, contudo, considera-se inocente, não aceita o princípio de que a sua dor tem uma culpa. Considera a sua vida dentro da dimensão da existência humana. Se sofrer é da condição humana, ser curado é uma ocasião para Deus manifestar o seu amor à criatura humana. Por isso, eleva a Deus essa oração: “Lembrai-vos de que a nossa vida é apenas um sopro e nossos olhos não voltarão a ver a felicidade”. Volta a queixar-se de que a existência é breve como um sopro. De que o viver não passa de uma luta fatigante sobre a terra. Mas repete a sua prece: Mostrai, Senhor, vossa face de misericórdia para aliviar nossos sofrimentos, nós que somos vossos filhos e filhas. Recordai-vos da vossa aliança.


Ai de mim, se eu não evangelizar - 1Cor 9,16-19.22-23

Paulo afirma que para ele evangelizar não é motivo de glória, nem coisa que ele faz para contar vantagem, nem para ganhar dinheiro. Ao contrário, para ele é uma necessidade, uma imposição que veio do seu interior. Se o fizesse por iniciativa própria teria direito a algum salário, mas porque é uma imposição que veio por vocação, então evangeliza de graça, sem exigir qualquer direito que o Evangelho possa eventualmente lhe conceder. A sua situação, descreve ele, é de alguém que lutou para ser livre em relação a todos, mas acabou se tornando escravo de todos, a fim de ganhar o maior número possível de pessoas para a causa de Cristo. Fez-se fraco com os fracos para ganhar os fracos. Fez-se tudo com todos para salvar alguns. O Apóstolo arremata sua reflexão com essa bela conclusão de missionário: “Por causa do Evangelho eu faço tudo, para ter parte nele”.


Jesus assume os sofrimentos de todos - Mc 1,29-39

No trecho do Evangelho da Liturgia de hoje, Marcos relata o sábado de Jesus passado em Cafarnaum. Jesus estava apenas iniciando a sua missão evangelizadora. Logo cedo foi à sinagoga, com os seus discípulos. Na Palavra de hoje Marcos dá sequência ao relato daquele dia de sábado em Cafarnaum, depois que Jesus saiu da sinagoga. Jesus foi à casa de Simão e André. Tiago e João os acompanharam. A sogra de Simão estava de cama, com febre. Jesus se aproximou dela, segurou a sua mão e a levantou. Tendo passado a febre ela começou a servi-los. Ao anoitecer, no fim do sábado, levaram a Jesus todos os doentes e endemoninhados. Parece que a cidade inteira se reuniu em frente da casa, sem que Marcos desejasse exagerar para impactar e impressionar. O fato é que, quando o sol se pôs, Jesus curou todos os doentes e exorcizou todos os endemoninhados que lhe trouxeram. O povo já tinha expressado o seu espanto com o seu ensinamento, pois ensinava com autoridade, e inclusive com o seu poder, pois silenciava e expulsava demônios com autoridade. Também agora “não deixava que os demônios falassem, pois sabiam quem ele era”. De madrugada Jesus levantou-se e foi rezar num lugar deserto. Simão e companheiros foram à procura de Jesus. E lhe disseram: “Todos estão te procurando”. Jesus respondeu: “Vamos a outros lugares, às aldeias da redondeza. Devo também pregar ali, pois foi para isso que vim”. Concluindo, Marcos disse que Jesus andava por toda a Galileia, pregando nas sinagogas e expulsando os demônios.


Artigo escrito por Dom Frei Caetano Ferrari, OFM. Bispo Emérito de Bauru.