EU SOU O TERCEIRO - Conversando com o Bispo 25 de outubro de 2020.


Os monges costumam colar na porta da própria cela santinhos de devoção, frases bíblicas ou ditos dos santos. Um deles escreveu a enigmática frase: Eu sou o terceiro. Os irmãos estranharam e não entenderam muito bem o seu significado. Os mais espirituais julgaram que se tratasse da terceira pessoa da Santíssima Trindade (Espírito Santo), outros mais pragmáticos, que se tratava da sua posição hierárquica, no Mosteiro onde viviam.

Um jovem noviço, curioso, perguntou ao morador daquela cela, qual o significado do escrito. O ancião respondeu: Primeiro, Deus. Segundo os outros. Terceiro, eu. Em tão poucas palavras o sábio monge resumiu toda a Bíblia, todas as genuínas Tradições religiosas e toda a essência da vida. A harmonia do mundo e de cada pessoa humana está na presença desses três elementos e nessa ordem precisa: Deus, os outros e, por último, o próprio eu.

A atual desarmonia do mundo e do homem se deve, tanto à ausência de algum desses três elementos, como na errada colocação deles. Muitos põem a si mesmos em primeiro lugar e, em segundo, as pessoas que selecionam segundo os seus interesses e, em último lugar, se houver lugar, caberá a Deus. Excluindo a Deus, restam o meu eu e as minhas circunstâncias. Excluindo Deus, que é a origem e fim de todas as coisas, temos o homem suspenso no ar do acaso, e ao sabor das circunstâncias (boas e ruins) e dos próprios desejos e instintos (bons e ruins).

Deus em primeiro lugar, pois Ele é a origem e o fim que dá sentido à toda a realidade. Sem Deus a realidade cai na incompreensão e no absurdo. Para fugir da incompreensão e do absurdo da vida sem Deus, para enganar e anestesiar o desespero, a cultura atual fabrica certezas (ideologias) e as vende através de poderoso marketing, criando uma legião de fanáticos vazios de alma. Enfim, a cultura agnóstica gera fanáticos de vários naipes (políticos, religiosos, consumistas e viciados em droga, internet, sexo, dinheiro etc.)

Talvez o erro principal do homem atual, o seu pecado original, seja colocar a si mesmo em primeiro lugar na sua lista de valores. A decepção consigo mesmo logo virá, e aquele que não foi bem educado para relativizar a si mesmo e perceber que há algo mais importante além do próprio eu, cairá no desespero. A bela casa construída sobre a areia, cairá quando vier sobre ela as tempestades da vida.

Alguns supervalorizam a opinião alheia e, por medo ou esperteza, vivem em uma constante ginástica existencial procurando agradar, fugir, manipular, cativar, dominar, derrubar ou oprimir as pessoas ao seu redor. Obviamente, é questão de tempo, essa pessoa será vítima de si mesma, pois se esgotará diante de tamanha energia desperdiçada e terminará desmascarada e enleada na própria armadilha. Como dizia o experiente político mineiro Tancredo Neves “esperteza demais, engole o dono”. O primeiro lugar cabe a Deus e nenhuma criatura poderá ocupar esse lugar.

Deus, os outros e, por último, o meu eu. Aqui está a equação perfeita para a felicidade harmoniosa da nossa vida pessoal, familiar e para a vida saudável do mundo. A missão de todos nós é uma só, ou seja, criar uma nova ordem mundial colocando cada coisa no seu devido lugar: Deus em primeiro, a dignidade de cada pessoa humana em segundo e, por fim, cada um de nós colocando-nos a serviço, a exemplo de Jesus, “que veio para servir e não para ser servido” (Mt 20,28).

Dom Rubens Sevilha, OCD.

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