“Eu quero: fica curado!” - Conversando com o Bispo de 14 de fevereiro de 2021.

O enfermo atacado de lepra gritará: Impuro! Impuro! - Lv 13,1-2.44-46

Este trecho do Levítico fala das leis de Israel a respeito da lepra. Foi o Senhor quem instruiu Moisés e Aarão a examinarem toda pessoa suspeita de estar com lepra, analisando os sintomas da doença que são visíveis na pele: tumor, pústula ou mancha. Constatada a existência de algum desses sinais pode-se prever que seja caso de lepra, uma doença contagiosa. Tal pessoa deverá ser levada a Aarão ou outro sacerdote que declarará tratar-se de um impuro. Então haverá de vesti-lo com roupas rasgadas, andará com cabelos soltos, ficará coberto até os lábios e gritará: Impuro! Impuro! Tal pessoa será excluída da comunidade, não podendo permanecer em casa, nem dentro dos muros da cidade, nem à beira dos caminhos. O texto diz que o leproso viverá isolado, fora do acampamento, banido da sociedade. Esse isolamento, tipo excomunhão, deduzia-se menos por razão sanitária e mais de moral e religião. A lepra era vista como sinal do pecado. Era considerada a pior das doenças, porque corrompia o corpo e levava à morte. A cura só era possível mediante um milagre, uma das obras que só Deus pode fazer. O Salmo responsorial (31/32) desperta a esperança para o pecador que reconheceu a sua culpa e confessou-se, porque foi perdoado e cumulado de bênçãos. Desperta-lhe ainda a alegria porque foi readmitido ao convívio social.

Fazei tudo para a glória de Deus - 1Cor 10,31-11,1

Um pouco antes, no versículo 23, Paulo disse: “Tudo é permitido, mas nem tudo convém”. Ele estava refletindo sobre a questão das carnes imoladas aos ídolos que sobravam nos cultos e eram vendidas abaixo do preço no mercado. É lícito ou não comer destas carnes? Não seria uma idolatria? Paulo afirmava que de per si não tinha nenhum mal, mas caso escandalizasse os fracos na fé, então, seria melhor não comer. Agora, como ele afirma, o cristão onde ele estiver, esteja fazendo seja o que for - comer, beber, exercer atividades, usar corretamente das coisas - deve fazer tudo para a glória de Deus e para o bem dos outros. Esta é a regra: “Não escandalizeis ninguém, nem judeus, nem gregos, nem a Igreja de Deus”. Desde as coisas mais simples Paulo se apresenta a si mesmo como exemplo: “Fazei como eu, que procuro agradar a todos em tudo, não buscando o que é vantajoso para mim mesmo, mas o que o é para todos”. E arremata, ressaltando: “Sede meus imitadores, como também eu o sou de Cristo”.

Um leproso pediu a Jesus: “Se queres, podes curar-me” - Mc 1,40-45

Na baixada da Galileia, Jesus cura um leproso. Marcos relata o fato na Palavra evangélica de hoje. O leproso foi até Jesus, movido por profundos sentimentos de humildade e de confiança. Ajoelhou-se diante de Jesus e suplicou-lhe: “Se queres, tens o poder de curar-me”. Cheio de sentimentos de compaixão e piedade, Jesus estendeu a mão, tocou nele e disse: “Eu quero, fica curado”. Marcos conta que no mesmo instante a lepra desapareceu e ele ficou curado. Jesus quebrou o tabu da lepra ao infringir a prescrição da lei quando tocou no leproso, um impuro. De acordo com as prescrições legais, a lepra devia ser obra de algum espírito mau. Na mentalidade religiosa dos contemporâneos de Jesus, toda doença física devia ser reflexo de uma enfermidade moral. Fica compreensível que Jesus tenha advertido severamente o homem curado para não contar nada disso a ninguém. Bem como tenha ordenado a ele para oferecer o sacrifício prescrito por Moisés, mediante o qual ficava selada a sua readmissão na comunidade. À luz da leitura do Levítico Jesus vai se revelando como o salvador, curando os doentes sem medo de contaminar-se e sem preconceito, estendendo a mão para resgatar a dignidade das pessoas e jamais marginalizar pessoas ou grupos.