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DECEPCIONADO COM DEUS - Mensagem Pastoral de Dom Rubens Sevilha, OCD


Era uma vez uma senhorinha, solteira, piedosa e beata, que enviou ao padre, por WhatsApp, a seguinte mensagem: “Não piso mais na igreja, pois quando mais precisei dela, a igreja me abandonou”. Bastante irritada, ela disparou impropérios contra o padre, contra o bispo e contra o Papa, porque ele até fechou o Vaticano.

A quarentena faz aflorar o pior de nós, aquilo que estava escondido em alguma dobra da nossa alma. A quarentena nos obriga a estar, a conviver e a conversar demoradamente conosco mesmos. Somos forçados a nos olhar longamente no espelho e descobrir a nossa mesquinhez de espírito e o nosso narcisismo infantil. Aquela senhora direcionou seu mal estar interior para a igreja e o descontou na religião.

Para muitos, infelizmente, a formação espiritual é muito precária e superficial. A quarentena vai revelar também o nível espiritual de cada um de nós. Alguns viviam a religião de forma egoísta, aproximando-se de Deus semelhantemente àquele que se faz amigo de alguém, para conseguir alguma coisa. É famoso o dito: Alguns desejam os dons de Deus, não o Deus dos dons. São João da Cruz escreveu que são muitos os amigos da glória de Cristo, mas poucos os amigos da cruz de Cristo.

Na verdade, aquela senhora era uma pessoa infeliz, revoltada e decepcionada com Deus. Como pode, pensa ela, um Deus que dizem ser Todo Poderoso, cheio de bondade e misericórdia, não fazer nada diante de um vírus tão pequeno e que está fazendo um mal tão grande à humanidade. Parece que Deus também está em isolamento social, que optou pela quarentena e sumiu. A nossa pretensiosa beata queria ensinar a Deus e dizer como Ele deveria se comportar.

Muitos vivem a religiosidade de maneira muito exterior e pragmática (interesseira). Toda a realidade externa e visível da Igreja tem uma alma. Durante a pandemia ficamos privados somente da parte externa e visível da fé, não da sua alma. Infelizmente, a senhorinha, beata mas rancorosa, vivia uma religião sem alma e, com a quarentena, restou-lhe nada ou somente um ressequido esqueleto da religião.

A Santíssima Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo) é a alma da Igreja. Todo o imenso tesouro de doutrinas, liturgias, tradições, leis e costumes, servem como instrumentos para manifestar, comunicar, preservar, defender e alimentar a fé na eterna e salvífica presença amorosa e misericordiosa de Deus na história humana em geral e na história de cada um de nós, seus filhos e filhas

Durante a pandemia ficamos pouco mais de dois meses sem poder ir à Igreja fisicamente, mas a família espiritual da Igreja sempre esteve unida. A união espiritual de todos os batizados formando o corpo místico de Cristo, que é a Igreja, recebe o nome de Comunhão dos Santos, que recitamos na oração do Creio, todo Domingo, na Santa Missa.

A quarentena vai provocar uma purificação da nossa fé. Teremos uma vida espiritual mais madura, mais profunda, mais realista, mais interior. Quebrou-se a imagem de um deus fazedor de milagres espetaculosos, como se ele fosse um grande mágico exibindo seus poderes. Veremos a Deus como Ele mesmo se autodeclarou: “Sou manso e humilde de coração” (Mt 11,25) e que veio para servir e não para ser servido (cf. Mt 20,28). Declarou que para segui-lo devemos abraçar a cruz de cada dia e carregá-la, e avisou-nos que “no mundo tereis tribulações, mas coragem, eu venci o mundo” (Jo 16, 33).

Se eu pudesse dar um último conselho para a infeliz senhora, seria: Minha filha, silencie, volte para a Igreja e procure dar sentido e significado a sua vida.

Dom Rubens Sevilha, OCD.

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