CUIDA DO TRIGO - Conversando com o Bispo de 20 de setembro de 2020.


Não sei se é verdade, mas li em algum lugar que não existe a linha reta na natureza. A linha reta seria uma invenção humana. A alma humana repugna o torto, o desalinhado, a desordem, a mentira, o efêmero, o feio, o ruim. O homem, sendo criado à imagem e semelhança de Deus, possui instintivo desejo de perfeição, de harmonia, de beleza, de plenitude, de verdade, de infinito, de eternidade.

Só Deus é perfeito. Abaixo de Deus todas as coisas são incompletas e inacabadas. Certa vez, encontrei uma jovem usando uma camiseta que estampava a seguinte frase: “Tenham paciência comigo, Deus ainda está me fazendo!”. De fato, todos estamos sendo continuamente construídos em obra realizada a quatro mãos, Deus e nós. Deus tem o seu projeto e executa, conosco e apesar de nós, a sua obra de amor.

“Se o Senhor não construir a casa, em vão trabalham nela os construtores” (Salmo 127). A tentação do orgulho nos leva a querermos construir a nossa vida e o nosso mundo sem Deus. Como uma nova torre de Babel a nossa fantasiosa construção da realidade termina na confusão e no nada. Aqui está um dos maiores problemas do mundo atual: querer construir a civilização rejeitando a Deus. Sem Deus o homem não consegue compreender a si mesmo e, muito menos, conseguirá compreender os outros, e a sua pretensa construção do mundo torna-se sem sentido e, pior ainda, torna-se cativa dos seus maus instintos: egoísmo, ambição, vaidade etc.

As consequências todos conhecemos e as sentimos na pele diariamente: competição desenfreada e cruel. Somos regidos pela lei do mais forte onde prevalece o mais competente e o mais esperto. Nossa cultura atual nutre profundo desprezo pelo pequeno, pelo fraco, pelo perdedor. Como somos todos pequenos e fracos, o ar cultural que respiramos faz com que nos sintamos péssimos diante da vida e com uma visão de mundo atrozmente negativa e derrotista.

O cristão reconhece a sua condição de criatura e aceita a sua pequenez e fraqueza mas, o que mais importa, é saber-se criado e amado pelo Pai Celestial, o qual nos deu a nobre missão de amar. Amar a Deus que é amor, amar o próximo como Jesus amou, amar a humanidade toda como Deus a ama, amar a natureza pois ela é obra do Criador que no-la deu para cuidar, contemplar e usufruir, não destruir.

A fragilidade e pequenez da condição humana só tem solução e explicação diante do olhar de Deus. Quando o nosso olhar se encontra com o olhar de Deus, a isso damos o nome de fé, então tudo fica esclarecido e cada coisa encontra seu lugar, encontra suas devidas proporções e a harmonia se estabelece. A fé é a única capaz de harmonizar o coração e o mais profundo da alma, harmonizar os relacionamentos e as estruturas sociais, tornando-nos todos irmãos e irmãs, filhos amados do mesmo Pai, todos habitantes da Casa Comum e todos nos esforçando arduamente para, sempre e em qualquer circunstância, “fazer ao outro aquilo que eu gostaria que o outro fizesse para mim” (cf. Mt 7,12).

O cristão convive sábia e serenamente com a imperfeição própria e com aquela do mundo que o rodeia. O cristão recomeça sempre e, deixando-se conduzir pelo Pai, caminha com humildade e coragem realizando o bem possível em todas as circunstâncias da vida. Enfim, para os pessimistas, deixo o maravilhoso conselho do Papa Francisco: Cuida do trigo e não perca a paz por causa do joio (EG 24).

Dom Rubens Sevilha, OCD.

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