ANO PERDIDO? - Conversando com o Bispo de 27 de dezembro de 2020.

Não, o ano 2020 não foi perdido, ele foi um ano atípico. O tempo é também uma criação de Deus e nos foi dado para que o usemos bem. O tempo, e tudo o que vem dentro dele, nos transcende e desemboca na eternidade que, segundo Wittgenstein, é a ausência do tempo. Durante a pandemia, entre muitas outras coisas, aprendemos a vivenciar e a usar o tempo, e tudo o que ele contém, de uma maneira nova.

Percebemos que a vida não é um iate veloz e altaneiro, impulsionado por potentes motores, singrando as águas até o seu destino. A vida é mais semelhante ao frágil e lento barco a vela que só avança se houver o sopro do vento que o leva para direções variadas, fazendo-o dar voltas e ritmos ao sabor das ondas, até chegar ao seu destino.

Estávamos mais preocupados com a velocidade da caminhada do que com o seu rumo. Muitos estavam ansiosos, correndo muito, mas fora da estrada e, por isso, quanto mais avançavam, mais se perdiam. Logo estarão desnorteados e cansados de uma corrida existencial que leva de lugar nenhum para lugar algum.

Aprendemos na pandemia que devemos rever nossos valores e ritmos de vida. Percebemos que o amor verdadeiro é o que dá rumo e sentido à caminhada da vida. Aprendemos que não existe amor assintomático, pois o amor sempre aparece em infinitos modos e formas. Talvez, quando dizemos que amamos, mas que não sabemos demonstrá-lo, estejamos na realidade escondendo nossa incapacidade de amar de verdade. Onde há amor, ele aparece.

No meio da pandemia, o Papa Francisco escreveu uma Encíclica nos convocando para o amor fraterno universal - Fratelli Tutti. A ideia é simples: Deus é nosso Pai e, portanto, somos todos irmãos. Sim, todos, sem excluir ninguém. Infelizmente o pecado entrou no coração da humanidade e temos, então, dificuldade em ser aquilo que somos chamados a ser, irmãos.

O Papa Francisco nos dá três indicações práticas para colaborarmos com a construção de um mundo melhor. Primeiro, para nós crentes, aproximarmo-nos de Deus na oração e na reflexão, deixando-nos iluminar e conduzir pelo Espírito Santo que impulsiona todas as coisas para o bem e nos fortalece no bom combate. O Espírito Santo é o vento, Ele é a bússola e Ele é o piloto do barco da nossa história individual e global.

Segundo, ensina o Papa, devemos agir sempre juntos, em sinergia, em colaboração. Sozinhos não conseguiremos enfrentar a devastadora complexidade do mundo atual. Hoje não há espaço para o herói, para a pessoa super iluminada, “profeta”, que do alto da sua genialidade diga para nós que descobriu a solução dos nossos problemas e que basta a nós, simples mortais, segui-lo cegamente. Hoje, a solução passa pela sinodalidade, isto é, em darmo-nos as mãos e caminharmos juntos, descobrindo juntos e ampararmo-nos mutuamente. Ninguém se salva sozinho, conclui o Papa.

Terceiro, partir para a ação. Devemos descruzar os braços, sair da indiferença e do comodismo e “iniciar processos” de coisas boas, fazendo tudo o que estiver ao nosso alcance, para que o mundo ao nosso redor se torne um lugar melhor para todos. Deus não nos pede o impossível, pois isso cabe a Ele; a nós Ele pede, somente, o bem possível, mesmo que seja um bem pequeno, defeituoso e frágil, pois Deus faz o fermento transformar a massa, faz a semente do bem germinar até dar bons frutos e flores, faz sua luz entrar nas escuridões do mundo e ressuscitá-las em vida nova. Feliz Ano Novo.

Obs. Esta coluna voltará a ser escrita por Dom Caetano Ferrari, bispo emérito.


Dom Rubens Sevilha, OCD.

 

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