A VIDA E A MORTE - Conversando com o Bispo - 1º de novembro de 2020.


O Papa lançou um livro de 210 páginas (Fratelli Tutti – Todos Irmãos) abordando temas fundamentais para a vida humana, apontando rumos essenciais para a humanidade e houve uma modesta repercussão. Ao mesmo tempo, houve um furor histérico diante de uma frase do Papa sobre a homossexualidade, dita de raspão em um filme documentário.


Hoje “coamos os mosquitos e deixamos passar os camelos” (cf. Mt 23,24). Inúmeros temas e assuntos menores e, até inúteis, são coados, retidos, dissecados e analisados, ocupando as horas e as mentes de todos nós batizados que, por missão divina, deveríamos estar usando as nossas energias para assuntos maiores e nobres, como a construção do mundo, o melhoramento da civilização e a salvação da humanidade.


Um provérbio chinês diz que “Todos os fatos têm três versões: a sua, a minha e a verdadeira”. A versão verdadeira a Deus pertence e nós ficamos somente com as migalhas da verdade que caem da mesa. Migalhas maravilhosas e divinas que saciam e fortalecem a alma. O faminto da verdade que opta somente pela própria versão, torna-se um fanático orgulhoso. Aquele que opta somente pela versão dos outros, torna-se um fanático idiota. Aquele faminto da verdade que opta pela versão de Deus, torna-se um santo.


Amanhã celebraremos o momento mais importante de nossa vida: a morte corporal. Antiga tradição cristã denomina a nossa irmã morte corporal de Dies Natalis, pois a morte não é o ponto final da nossa existência, pelo contrário, é o início da terceira e última etapa da jornada da vida. A primeira etapa é a nossa preexistência no pensamento de Deus, a segunda é a nossa passagem pela terra e a última começa na hora da nossa morte, quando nascemos para o final feliz, o céu.


Tenho verdadeira admiração pelos ateus. Admiro neles a força e a coragem como conseguem enfrentar, sem desesperar, a dura realidade da vida, afirmando não terem origem divina (consideram-se frutos de um acaso) e o desfecho humilhante da existência (velhice e morte) na noite do nada. Sem a esperança feliz que a fé me dá, sem o sentido da vida nobre e eterna que a fé me dá, eu me desesperaria.


Humanamente tenho medo da morte, exatamente como tenho medo de uma cirurgia grave. Tenho medo do desconhecido, da dor, do sofrimento e do constrangimento que a morte comporta. Fui agraciado por Deus com o dom da fé e, portanto, acredito piamente que fui criado por Deus, que Ele me acompanha sempre (mesmo diante das minhas fugas e pecados) e que a vida eterna me aguarda.


Quando alguém me pergunta ironicamente: “E se depois da morte não houver nada?” Eu opto pela solução do filósofo Pascal: “Se não houver nada, eu não perdi nada por ter vivido bem. Se houver a vida eterna, eu sairei ganhando.”


No Dia de Finados, além das orações habituais, sempre leio a poesia de Ir. Marie Ange Robbe, intitulada: Para Meu Amigo.


Quando eu morrer e você quiser dizer uma palavra à minha vida que foi,


não ponha sobre a terra que me cobre, a rosa, bela demais.


Nem o jasmim, por seu aroma indiscreto.


Não ponha a magnólia porque é fidalga, e fala melhor às vidas que foram grandes.


Não ponha a violeta que é a mais humilde e, eu deveria, mas não fui.


Não ponha nenhuma flor de cor amarela, a cor da luz, porque andei entre as sombras, amei a penumbra, bebi todos os cinzas e você não vai achar nenhuma flor da cor neutra que se apaga para o outro brilhar.


Quando eu morrer, plante ali a hera.


Que se agarra e cresce, que vive e morre onde nasceu.


Fiel.


Dom Rubens Sevilha, OCD.

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