A NOITE ESCURA DA HISTÓRIA - Mensagem Pastoral de Dom Rubens Sevilha, OCD - 5 de julho de 2020


Como serão a Igreja e o mundo pós-pandemia? Eu não sei e acho que ninguém sabe. O fato é que estamos ainda no meio do turbilhão e não conseguimos enxergar claramente nada fora dele. São João da Cruz, grande místico espanhol do sec. XVI, denominou de Noite Escura os períodos difíceis da vida. Podemos ampliar o conceito dizendo que há também a Noite Escura da história. Estamos vivendo um momento histórico de Noite Escura, sem luar e sem estrelas brilhando. O mais importante e o mais difícil, segundo o místico espanhol, é ter que caminhar na mais absoluta escuridão. Caminhar sem apoio algum, pois não se consegue enxergar explicação alguma, solução alguma, finalidade alguma, luz alguma. Alguns filósofos modernos disseram que São João da Cruz é um niilista.

A Noite Escura é ação de Deus na alma. A Noite Escura histórica que estamos vivendo é fruto da ação de Deus na alma do mundo. A palavra atual que, a meu modesto ver, melhor traduz a ideia de Noite Escura é crise. Toda crise é crise de crescimento, por isso Deus a permite, pois Ele sabe a graça e o renascimento que daí advirá. Na crise ficamos desnorteados e sem as certezas e convicções que tínhamos anteriormente. Os nossos projetos, desejos e sonhos se derretem ou se evaporam. Talvez o mais perfeito lema da Noite Escura seja: Meu mundo caiu. De fato, o mundo criado por nós e por nossas ambições e megalomanias, fatalmente, mais cedo ou mais tarde, caem. Todavia, o mundo real criado e conduzido por Deus, segundo o seu misterioso projeto de Amor, jamais ruirá.

A crise é humana, não divina. O homem entra em crise, não Deus. Infelizmente, somos tão egocêntricos e ensimesmados que, quando estamos em crise, julgamos que Deus e toda a “realidade” também estão. É bom lembrar que a “realidade” vai muito além da nossa pobre compreensão e explicação. A fé é um transbordar do olhar da alma além dos limites do que vemos e compreendemos. A nossa orgulhosa autorreferência narcisista nos aprisiona em um cárcere do pessimismo, onde vemos somente até onde os nossos olhos alcançam e damos a isso o nome de “realidade”. O crente também enxerga a realidade até onde os olhos da razão alcançam, mas por graça divina, ele tem o olhar da alma infinitamente ampliado e enxerga longe. Enfim, todo ateísmo é míope.

Toda crise é crise de crescimento, pois Deus não faz armadilha para os seus filhos, pelo contrário, Ele nos livra do laço do caçador (Salmo 90). A crise dolorosamente desconstrói o nosso modo de ser e nos propõe recomeçar e reconstruir nossa vida e nosso mundo de forma melhor e renovada. Deus sempre renova todas as coisas, pois Ele as continua criando, recriando e cuidando delas. Alguns, por falta de fé profunda, agem como se Deus tivesse criado o mundo e o abandonado a si mesmo. Muitos professam crer em Deus criador de todas as coisas, mas inconscientemente, agem como se Deus fosse incapaz de agir para transformar ou melhorar o mundo e a nossa vida pessoal.

É verdade que o pensamento, o agir e o tempo de Deus são misteriosos e incompreensíveis para nós. A fé exige uma boa dose de humildade, também de humildade intelectual, da qual carecemos atualmente. Enfim, concluamos com as dicas do santo místico para as ocasiões de crise (Noite Escura): Não decidir nada no momento e manter a paciência orante, ficar calado e esperar o dia amanhecer. O dia sempre amanhece. E não parar de caminhar, mesmo com medo e insegurança, sabendo que está sendo conduzido, ou melhor, carregado nos ombros fortes do Pai. O problema não está na Luz, mas nos nossos olhos doentes. “Senhor, faça com que eu veja. Jesus disse: Vê! Tua fé te salvou” (Lc 18, 42).

Dom Rubens Sevilha, OCD.

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